Videogames são um assunto que muito me agrada. Muitos deles são obras incríveis com seus enredos e ambientações imersivas, construídos por mentes brilhantes, tentando nos surpreender a cada ato, e que são ignorados e às vezes ridicularizados por certas pessoas de que videogames são feitos para crianças ou pessoas à toa. É triste, mas como um novo tipo de arte está sujeita a pensamentos preconceituosos de muitos que não a conhecem. Devemos ter paciência com essas pessoas e tentar ensiná-las de que não é bem assim.
Obviamente nem todos os games possuem uma densidade complexa de personagens e enredo. A maioria dos jogos é focado no entretenimento, o que é válido, afinal, nasceram com o propósito para nos divertir. Mas estes games não são o foco do texto.
A Wikipédia define a filosofia como “o estudo de problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, a verdade, aos valores morais e estéticos, à mente e à linguagem”. Esta definição nos serve para o assunto tratado aqui.
Diversos gamers da geração 2010 acreditam que Filosofia e História começaram com a saga Assassin’s Creed. Para eles eu digo: vocês estão extremamente errados.
Filosofia em games está enraizado em sua essência, embora muitos games foram esquecidos ou talvez nem notado. O exemplo que mais me vem em mente é Final Fantasy IV (1991), constituído de dramas pessoais sobre o que é certo e errado vividos pelo protagonista Cecil.
O quarto game numerado da franquia trata de temas complexos que necessitam de sensibilidade e atenção para perceber, como tentativa de suicídio, abuso mental, culpa, abandono, megalomania, solidão, ganância pelo poder, genocídio, a luta pela paz mútua unindo todas as raças, entre outras dezenas de comportamentos humanos em conflito em um emaranhado de acontecimentos.
Ainda nos JRPGs, um dos jogos com maior carga filosófica dos games, e um dos meus favoritos, é Xenogears (1998): um entendimento sobre o fluxo do universo e da vida.
Essa obra prima é complexa com um orçamento bastante limitado para os dias de hoje. A base de Xenogears é justamente tudo que a filosofia estuda e tenta explicar. Logo no início, temos o protagonista desmemoriado, Fei, que vai se questionando durante toda a jornada, apresentando seu Ego, Supergoego e Id, conceitos do psicanalista Sigmund Freud (1856-1939).
Para quem não sabe o que são esses nomes, uma breve analogia: imagine um espelho com sua imagem. Quebre-o e sobra três pedaços, cada um mostrando sua imagem. Não entendeu? Basicamente os três são modelos hipotéticos estruturais da mente que, segundo Freud se divide em três instâncias. Cada um representa você, mas em um aspecto diferente.
Inicialmente, o jogo trata do conflito entre os três processos mentais no protagonista Fei. Mas este é um dos pequenos elementos desenvolvidos no decorrer na narrativa. Devo mencionar que a maturidade como os temas são tratados é diferente até para os padrões dos games de hoje em dia. E mesmo sendo um jogo oriental, não possui personagens andrógenos, tratados de forma sensível e madura.
É incrível a quantidade de informações que esse game expõe e mencionei apenas um aspecto ínfimo dele. A única recomendação que posso fazer é que você jogue essa maravilha, pois não irá se arrepender.
Shadow of the Colossus (lançado originalmente em 2005 com um remaster em 2018) possui um enredo silencioso e interpretativo. Como protagonista temos o corajoso Wander. Com certeza não o mais inteligente, mas com certeza respeitável por suas proezas em escaladas. As flechas são usadas estrategicamente para chamar atenção dos “bichinhos”, muitas vezes maiores que o Everest! A jogabilidade e a trilha sonora são insanas, mas vou me ater sobre a filosofia contida no enredo.
Wander viaja para os confins do mundo, fechando um acordo com um deus/demônio. O acordo é reviver Mono, uma garota que morreu sacrificada por motivos… Não nos é dito o motivo. As razões dessa morte não mudam o fato para Wander de que ela está morta e ele precisa encarar a jornada para revivê-la, mas a teoria mais aceita é que Mono foi sacrificada por um costume religioso tribal. Wander liga o foda-se para os porquês de sua morte, desafia seus superiores, rouba um artefato sagrado e sai em busca de reviver essa garota.
Dormin, o deus/demônio diz para Wander que, com tal artefato, mate dezesseis colossos, aparentemente partes da natureza do local, imbuídos com fragmentos da alma dele. Os colossos são criaturas inocentes que apenas dormem, possuindo uma vida entediante. O deus/demônio ainda avisa que Wander não irá se dar bem no final. Mas quem disse que nosso protagonista se importa, desde que Mono seja revivida?
Em uma atitude extremamente egoísta e insana, Wander sai em busca de assassinar tais criaturas. Ele não se importa com as consequências de eliminar essas criaturas, seja para o mundo ou para ele mesmo. Ele simplesmente quer ressuscitar a pessoa que ama, um humano seguindo seus sentimentos. Desejar o bem para quem amamos também é uma forma de egoísmo. O desfecho dessa história você só saberá quando zerar esse magnífico game.
Metal Gear é uma série de games que sempre teve um excelente gameplay e ótima trilha sonora. Os personagens são extremamente cativantes e bem trabalhados, além que o enredo possui seu charme de espionagem e “fantasia na realidade”, fascinando milhões de pessoas. São diversos temas trabalhados na saga, basicamente conflitos políticos, guerras e suas devastações e o seu fator psicológico em todos os personagens da trama.
Quem é o verdadeiro vilão? Em quem acreditar? Qual o lado certo? As motivações e o entendimento sobre a complexidade humana e a tentativa de compreensão de suas decisões fazem de Metal Gear uma narrativa fascinante e madura. Em especial destaco Metal Gear Solid 3: Snake Eater (lançado originalmente em 2004 com um remake em 2025), um game sobre o sacrifício da própria honra pelo bem de todo e que de certa forma fez eu ter um apreço em acompanhar política e, consequentemente, história.
Para a sétima geração de consoles pensei em falar de Dark Souls, porém iria me perder na vastidão deste game, um dos meus preferidos. Escolhi um game de FPS (First Person Shooter) por popularmente ter a fama de enredo “raso”, no caso BioShock Infinite (2013) com seu Multiverso.
Bioshock Infinite mereceu todo o hype e sucesso, tanto pela jogabilidade quanto pelo enredo. Seu enredo e conceitos filosóficos são bem explícitos, basicamente uma crítica à religiosidade cega. Mesmo assim, deve ser apreciado com calma e cuidado que ele merece.
Creio ter deixado claro, embora brevemente, que muitos games possuem imersões insanas, e pessoas pseudointelectuais amantes da verdade absoluta, ou simplesmente pessoas ignorantes, estão mais erradas quando pensam o contrário. Não só games, mas desenhos animados e histórias em quadrinhos (incluindo animes e mangás), são obras que podem chegar a níveis absurdos de intelectualidade, sofrendo também o mesmo preconceito. Espero que um dia isso diminua bastante, mas, infelizmente, esse dia não é hoje.
Onde Jogar os Games Citados:
- Final Fantasy IV conta com uma versão remaster nas principais plataformas (Steam, Playstation, Xbox e Nintendo)
- Xenogears não há versão oficial para ele, mas existem sites com ROMs originais para baixar e jogar no emulador (lembrando, tendo a ROM original não configura pirataria).
- Shadow of the Colossus conta com uma versão remaster disponível no Playstation.
- Metal Gear Solid 3: Snake Eater está disponível nas principais plataformas na Metal Gear Solid: Master Collection – Vol 1. O remake também está disponível para as mesmas plataformas.
- BioShock Infinite é facilmente encontrado em todas as plataformas (PC, Playstation e Xbox)