Diversos fãs de Kojima conhecem as primeiras obras da saga Metal Gear (Metal Gear e Metal Gear 2: Solid Snake), porém poucos as jogaram, mesmo com o relançamento na HD Collection.
Hideo Kojima teve uma infância solitária e era viciado em filmes e séries norte-americanos. Sempre tentou se encaixar no ramo artístico, porém não sabia desenhar e escrevia textos longos para serem publicados, o que, aliado à situação econômica crítica do Japão, tornava tudo mais difícil.
Frequentou a faculdade de economia, porém ficou entediado e arrumou um emprego, em 1986, no setor de MSX da Konami. Seu primeiro trabalho seria o game Penguin Adventure, sequência de Antarctic Adventure, um clássico da Konami.
Após isso, passou a desenvolver Lost World, um game de plataforma sobre guerra com um protagonista mascarado, mas a Konami cancelou o projeto. Kojima recebeu um ultimato da empresa: fazer um game de guerra ou seria demitido. A própria Konami desenvolvia outro projeto sobre guerra, que viria a se chamar Contra.
Assim, Kojima iniciou o desenvolvimento de Metal Gear, um game de guerra com câmera superior. Nos estágios iniciais, o produtor achava tola a ideia de um soldado invadir uma base sozinho. A partir disso, ele criou o gênero Stealth, em que o objetivo era passar pelos guardas despercebido, inspirando-se no filme Fugindo do Inferno (1963), estrelado por Steve McQueen. Então, Metal Gear tornou-se o primeiro game do gênero Stealth de temática bélica em visão superior.
O enredo narra a jornada de Solid Snake, um soldado da FOXHOUND, grupo de operações especiais de alta tecnologia dos EUA, que invade a fortaleza de Outer Heaven, criada na década de oitenta por um lendário mercenário na região fictícia de Galburg, na África.
Ao entrar na base, Snake recebe orientações de seu chefe, Big Boss, um lendário soldado norte-americano. Seu objetivo era resgatar Gray Fox, o único soldado da FOXHOUND a receber o codinome Fox, e destruir a máquina de destruição em massa, o Metal Gear.
A operação de Snake foi batizada de Operation Intrude N313 e se passa dias após a Operation Intrude N312, na qual Gray Fox foi enviado a Outer Heaven e capturado. Sua última mensagem foi “Metal Gear”.
No primeiro trecho, o jogador deve passar escondido pelos guardas e ir até o elevador. Essa cena é referenciada nas continuações Metal Gear 2, Metal Gear Solid e na segunda parte de Metal Gear Solid 2.
No começo, temos as conversas de Snake e Big Boss. Conforme a trama avança, novos personagens vão surgindo, como o doutor Drago Pettrovich Madnar, raptado pelo líder de Outer Heaven para construir o Metal Gear, e sua filha Ellen, também sequestrada. Além deles, temos a Resistência, rebeldes que querem salvar os prisioneiros de Outer Heaven, sendo eles os sul-africanos Diane, Kyle Schneider e Jennifer.
Entre os inimigos, há vários guardas armados, com equipamentos que vão de metralhadoras a bombas, além de ciborgues TX-11 chamados de Arnold (o nome foi alterado para Bloody Brad pela referência clara ao T-800 do filme O Exterminador do Futuro). Existem quatro grandes mercenários: Shoot Gunner (alterado para Shotmaker), Machinegun Kid, Fire Trooper e Coward Duck (alterado para Dirty Duck, pela semelhança com Howard the Duck, da Marvel). Além deles, temos o helicóptero Hind-D, o Metal Gear TX-55 e o líder misterioso de Outer Heaven.
A trilha sonora é boa. Ela não é tão grandiosa quanto a dos títulos seguintes, sendo as mais marcantes a de alerta (que tocará muito) e Theme of Tara, que toca o jogo inteiro. Essa mesma faixa é reutilizada nas missões VR de Metal Gear Solid. É um clássico dos games, mas, depois que você zera, provavelmente não aguentará mais ouvi-la, de tanta repetição.
O gameplay é simples: Snake pode andar, socar, atirar e usar itens. O melhor método para passar de fase é não ser visto pelos guardas e câmeras, escondendo-se atrás de paredes e se movimentando quando eles estão de costas. Para avançar, o jogador deve abrir portas, que são abertas com cartões magnéticos obtidos ao derrotar certos inimigos. Entre os itens, temos os cartões (são oito no total), binóculos, máscara de gás, rations (latas de alimento que restauram a vida), cigarro (que tira vida e, segundo Kojima, é uma forma de estimular as pessoas a não fumar) e a caixa (na qual o jogador pode se esconder).
Entre o armamento, temos pistolas, metralhadoras, bazucas e outras armas. Também existem prisioneiros de guerra para salvar, algo que só retornaria em Peace Walker. A cada cinco resgates, o jogador é recompensado com uma estrela em seu rank (o máximo é de quatro), que aumenta sua barra de energia e munição. O jogador perde uma estrela se matar um prisioneiro.
O enredo é simples, resumindo-se a cento e dezesseis mensagens (reduzidas para oitenta e seis na versão ocidental), a maioria delas tutoriais. Mesmo assim, nos últimos minutos, o jogo eleva o nível de curiosidade do jogador.
Para poder falar de Metal Gear 2: Solid Snake, é preciso mencionar alguns spoilers de Metal Gear.
Metal Gear foi revolucionário e bem aceito pela crítica e pelos jogadores. Mesmo o port porco para NES, infiel ao original, vendeu bem. A Konami, sem precisar da intervenção de Kojima, decidiu lançar uma continuação para NES, Snake’s Revenge.
Após descobrir a existência desse plano, Kojima, ainda mais consagrado com o lançamento de Snatcher, tomou as rédeas do desenvolvimento da sequência, agora para MSX2, plataforma à qual era habituado. O game foi renomeado para Metal Gear 2: Solid Snake, passando a ter mais foco no protagonista.
Lançado exclusivamente no Japão, recebeu traduções de fãs durante a década de noventa (inclusive em português), mas só foi oficialmente lançado em 2006, na coletânea Metal Gear Solid 3: Subsistence.
No enredo, quatro anos se passaram desde o incidente em Outer Heaven. Snake havia destruído o protótipo de Metal Gear e descoberto que Big Boss era o líder de Outer Heaven. Agora, em 1999, a Guerra Fria terminou, mas um novo problema se apresenta: o combustível. As jazidas de petróleo estão secando, e o mundo luta para descobrir fontes alternativas ou encontrar mais petróleo. Eis que o cientista tcheco Kio Marv descobre, por meio da bioengenharia, uma alga batizada de OILIX, da qual seria possível extrair petróleo de forma rápida e eficaz.
Ao sair da Conferência Mundial de Energia em Praga, Marv foi sequestrado por soldados de Zanzibar Land, um país recém-formado por militares, que vem conquistando países vizinhos. Informações da OTAN mostram o vasto arsenal da nação, que contém armas nucleares, e seu plano de monopolizar o petróleo.
Diante desse cenário, o novo líder da FOXHOUND, Roy Campbell, é obrigado a trazer Solid Snake da aposentadoria de volta à ação, com o objetivo de resgatar Marv na Operação Intrude F014.
Snake é mandado de paraquedas à fronteira do Afeganistão e invade o local sem ser avistado pelos mercenários de Zanzibar (o método foi o mesmo usado em Metal Gear de NES e seria repetido em Metal Gear Solid 3: Snake Eater).
O game começa com duas cenas. A primeira é um texto explicativo sobre o que narrei acima, ao som de Zanzibar Breeze. A segunda mostra a montagem do novo Metal Gear, ao som de Theme of Solid Snake.
Inicialmente, recebemos uma ligação de Campbell explicando nosso objetivo. Depois disso, o jogador deve passar pelos guardas e adentrar a base por um elevador.
Durante o game, teremos vários personagens de apoio, em número superior ao do primeiro Metal Gear. Além disso, podemos ver o rosto das pessoas com quem conversamos, diferentemente do primeiro, em que o foco era o rosto de Solid Snake.
Entre os ajudantes, temos o Coronel Campbell, que lhe dá instruções de como prosseguir; Mestre Miller, que dá instruções de saúde e alimentação (ele fica alertando o jogador para não jogar por tanto tempo); Kasler, membro infiltrado da FOXHOUND, que passará informações sobre os inimigos; e Holly White, membro da CIA que dá dicas a Snake e serve claramente de inspiração para Meryl.
Já entre os inimigos, temos os membros da Zanzibar Breeze: Black Ninja (originalmente Black Color), Running Man, Red Blaster, Four Horseman (originalmente Ultra Box), Jungle Evil (originalmente Predator), Night Fright (originalmente Night Sight), além de outros, como mais um Hind-D.
O gameplay não foi alterado, mas novas mecânicas foram adicionadas, principalmente quanto aos inimigos, que possuem um campo de visão de 45° e podem mover a cabeça para os lados e se deslocar para outras telas. O radar é desligado ao entrar no modo de alerta.
Esses elementos se mantiveram até Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty. Os itens e as armas são quase todos os mesmos. Os cartões ainda não são atualizados, mas há uma mudança curiosa. Agora existem três rations, e cada uma possui sua própria descrição. Inicialmente, parece frescura, mas, com o desenrolar do game, vê-se como esses tipos são necessários. Sobre os cartões, existem três mestres, sendo eles o vermelho (portas um a três), o azul (portas quatro a seis) e o verde (portas sete a nove). Além de se esconder em caixas, Snake também pode se esconder em baldes.
Metal Gear tinha uma boa trilha sonora. Sua continuação possui uma trilha espetacular. Além das faixas de introdução (Zanzibar Breeze e Theme of Solid Snake), há faixas padrão de gameplay e outras para momentos de morte e drama. Destaco o hino de Zanzibar, que pode ser ouvido a partir da sala de controle principal.
Sobre o enredo, diferentemente do primeiro game, em que a história é apenas um pretexto, na continuação ele é incrível e importante. É de admirar que um game de 1990 pudesse ter uma trama bem-feita e aprofundada. O próprio Kojima vinha de Snatcher (1988), que era uma visual novel jogável, similar aos point-and-clicks.
O enredo foca no debate sobre o heroísmo na guerra: se existe um lado bom e um lado mau, e se realmente existe um vilão.
O game faz diversos retcons do anterior, acrescentando fatos que não haviam sido explicados e dos quais o próprio Snake tinha ideia. O jogador vai visualizar o quão cruel e miserável é a guerra e começa a sentir, junto com o próprio protagonista, um sentimento de culpa por ter se envolvido no incidente em Outer Heaven.
O game possui diversos personagens carismáticos, diálogos elaborados (alguns com humor), algumas lições de química e biologia, além de romances. Existem crianças andando por Zanzibar, e elas lhe darão pistas sobre quem está envolvido com a nação.
O game apresenta puzzles bem elaborados, que dão até utilidade ao cigarro de Snake, além de ensinar o código Morse, com batidas que servem para descobrir um determinado número de codec.
O segundo game é superior ao primeiro e representa um passo a mais rumo ao que seria feito em Metal Gear Solid. A personalidade de Snake é moldada a partir deste game, que o deixa enlouquecido e depressivo, o faz perder a esperança na humanidade e o leva a se classificar como um mero assassino com diversos cadáveres ao seu redor. É um dos melhores games da saga, mas subestimado por muitos.
Agora vamos às curiosidades e easter eggs:
- O nome da missão de Gray Fox, Operation Intrude N312, é uma referência ao projeto cancelado de Kojima, o Project N312.
- Em Snatcher, existe um robô chamado Mk.II, que auxilia Gillian Seed a desvendar mistérios. O mesmo robô voltaria como ajudante de Snake em Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots.
- Em Snatcher, existe um bar chamado Outer Heaven, onde diversos cosplayers de personagens da Konami assistiam a shows eróticos.
- Na capa do primeiro game, Solid Snake é baseado no ator Michael Biehn em uma cena do filme O Exterminador do Futuro, no qual ele interpretou Kyle Reese.
- Solid Snake e Big Boss tiveram inspiração em Kurt Russell no filme Fuga de Nova York, no qual ele interpretou Snake Plissken. O tapa-olho de Big Boss, no olho esquerdo, é o mesmo do personagem de Russell.
- Os Bloody Brad foram inspirados no T-800 de O Exterminador do Futuro, tanto que se chamavam Arnold no roteiro original.
- Diversos nomes de ambos os jogos foram alterados para evitar processos por referências óbvias.
- Todos os rostos de Metal Gear 2 foram redesenhados.
- No roteiro original, todas as rations tinham cor verde.
- Quase todos os personagens foram inspirados em atores ou pessoas famosas.
- Assim como Snake, Jonathan Ingram, de Policenauts, foi inspirado em Mel Gibson.
- O ator em quem Big Boss foi inspirado, Sean Connery, foi o primeiro James Bond. Em outras palavras, Big Boss realmente é um espião lendário.
- A ideia base para Metal Gear veio do filme Fugindo do Inferno (1963), estrelado por Steve McQueen.
- No Japão, o nome Madnar se pronuncia Madonna, embora a referência seja a um cientista de Snatcher.
- Em determinado momento, Kasler diz haver um boato de que Big Boss morreu em Outer Heaven, mas foi reconstruído no Projeto Snatcher (referência ao outro game) e transformado em ciborgue após perder o outro olho e quase todos os membros.
- Black Ninja é o primeiro ninja da franquia e um projeto da NASA.
- O número do codec de Holly é o mesmo de Meryl em Metal Gear Solid.
- Ao final do game, Big Boss exclama “It’s not over yet!”, a frase que se tornaria clássica em Metal Gear Solid na voz de Liquid Snake.
- O fato de Snake ser filho genético de Big Boss foi um retcon em Metal Gear Solid. Nada disso é dito em Metal Gear 2.
- A Konami lançou um livro-jogo chamado Metal Gear, no qual a pessoa lia a história e fazia escolhas que mudavam o desenrolar da trama. Nele, Solid Snake é descrito como “frio e calculista, porém um guerreiro habilidoso com atos corajosos”. O livro tem visual de mangá e apresenta uma personagem sobre a qual não há maiores informações.