Poder do Subconsciente Humano e as Tramoias do Destino no Universo de Berserk

Berserk é um mangá famoso por sua violência e brutalidade, onde o protagonista, Gatts ou Guts é um rapaz enorme com uma espada maior ainda e um canhão acoplado no braço, buscando vingança e matando todo tipo de monstro pelo caminho, mas acredite, não é preciso ir muito longe para ver que a obra é muito mais do que isso. Por mais que os fãs de shounen queiram ignorar, Berserk não é uma história rasa com violência gratuita e enredo preto no branco, do tipo herói da justiça em nome da amizade contra um vilão malvado, canastrão, querendo conquistar o mundo e tendo uma risada maléfica. Alguns podem até argumentar que o “vilão” da história quer conquistar o mundo (e conseguiu), mas não é tão simples assim. Berserk é uma obra complexa que por trás de sua violência, aborda temas sobre filosofia, psicologia, religião, ocultismo, e sobretudo, a humanidade. Por isso, talvez, ele seja violento. O mundo onde se passa a história é baseado na era medieval, sendo um reflexo do estado primitivo e cruel das pessoas nessa época. À primeira vista pode-se pensar que a violência é apenas um meio de chamar atenção – e certamente tem muita gente que acompanha só por causa disso. Mas o importante é que não é uma violência gratuita, tudo se encaixa dentro do contexto do mundo totalmente errôneo da obra. Lembrando que este texto reflete a minha visão, e não necessariamente dos criadores, além de possuir spoilers. Apesar de Berserk ser uma história de fantasia medieval com monstros, ogros, trolls e outros criaturas, fica claro que o enredo gira em torno da humanidade, mais precisamente, o poder que a humanidade inconscientemente exerce no mundo natural e, principalmente, “sobrenatural” no universo do mangá. O universo do mangá é forte influenciado pelo ocultismo, sendo dividido em três níveis: Como o plano das ideias é governado pelo subconsciente, os pensamentos e emoções dos seres vivos fluem ali. Esses pensamentos e emoções, quando perpetuados por muito tempo, ganham vida no plano astral. Exceto por elfos, elementais (que são espíritos da natureza) e pelos espíritos malignos (almas humanas atormentadas) todos os outros seres sobrenaturais são criações da mente dos humanos. Todos os mitos e fantasias da humanidade navegam pelo reino das ideias e ganham vida no plano astral. Para reforçar isto, em certo momento do mangá, acontece o evento chamado de Transformação Mundo, onde o mundo se transforma. Os planos físico e astral se combinam, iniciando o arco chamado de Fantasia, onde os mitos e fantasias que a humanidade adora criar e que ganharam vida no plano astral, vem ao mundo físico. Isso mostra como o poder do subconsciente e das emoções humanas é absurdo no mundo de Berserk. Obviamente, isso não tinha grande influência na vida da maioria das pessoas antes da Transformação, pois a intervenção da ordem religiosa Holy See (alegoria da Igreja Católica) erradicou qualquer forma de magia do mundo por ser “heresia”, as barreiras entre o plano físico e astral foram intensificadas e os humanos não tinham praticamente nenhum contato com os seres astrais. Com a Transformação Mundial, agora eles têm contato, contato até demais. Este é apenas um exemplo. O subconsciente humano deve fazer mais do que dar vida aos seres astrais. Existe um capítulo de Berserk que foi retirado do mangá por pedido do criador Kentaro Miura. Segundo ele, além de revelar muito, também limitava a história. Graças a isso, ficou conhecido como Capítulo Perdido. Mas antes de me aprofundar no Capítulo, vou contextualizar. O líder do Bando do Falcão, Griffith (vilão, herói ou apenas um humano em estado extremo), estava prestes a conquistar seu sonho, ter seu próprio reino, mas é arruinado por um momento de fraqueza emocional, quando ele transa antes da hora com a filha do rei, Charlotte. Depois de ser acusado de traição e passar um ano sendo torturado das piores maneiras possíveis, o destino reserva uma nova chance para Griffith recuperar o seu sonho. Para isso, ele tem uma terrível decisão a tomar: sacrificar todos os seus companheiros do Bando do Falcão que lutaram ao seu lado para realizar seu sonho, ou recusar e jogar tudo o que ele lutou no lixo. Qual seria o certo? Recusar a sacrificar seus companheiros mostraria fidelidade a eles ou uma traição por jogar tudo fora o que eles lutaram? Aceitar sacrificá-los das maneiras mais cruéis e perturbadoras possíveis, tornando-se um dos maiores filhos da puta da história dos mangás seria o certo? Este dilema mostra a profundidade da obra e o quanto os personagens são humanos. Mas este é só um exemplo. Voltando ao Capítulo Perdido, ele se inicia com Griffith, que antes de tomar sua decisão, é levado para conversar com Deus. Como o mundo de Berserk é muito extremo, com as piores guerras, as mortes mais cruéis e todo tipo de sofrimento. Que tipo de emoções um mundo assim pode produzir no reino das ideias? Um oceano de sentimento negativos, o lado negro do subconsciente humano. E nas ondas desse mar de negatividade foi onde nasceu a principal ideia, o deus do abismo, a Ideia do Mal. Para mim, um deus criado pelo lado negro das emoções e do subconsciente humano é genial! Apesar de ter “mal” no nome, Ideia do Mal não é exatamente maligno. Creio que mais do que tudo, ele é a personificação dos desejos inconscientes da humanidade, principalmente o desejo de que algo guie suas vidas, de que dê sentido a elas. E é apenas isso que o Ideia faz, ele obedece aos desejos ocultos do subconsciente humano e manipula o destino de cada pessoa para realizar tais desejos. Isso é o que ele afirma a Griffith. Tudo foi definido para Griffith estar ali diante dele, desde a muitos séculos atrás. Ideia manipulou tudo, influenciando as camadas mais baixas da consciência humana, cruzando sangue com sangue, criando a linhagem que daria luz ao Griffith e guiando todos os acontecimentos de sua vida para que ele chegasse ali. Mas porque Griffith é tão
1 – BREVES EXEMPLOS DE FILOSOFIA NOS GAMES

Videogames são um assunto que muito me agrada. Muitos deles são obras incríveis com seus enredos e ambientações imersivas, construídos por mentes brilhantes, tentando nos surpreender a cada ato, e que são ignorados e às vezes ridicularizados por certas pessoas de que videogames são feitos para crianças ou pessoas à toa. É triste, mas como um novo tipo de arte está sujeita a pensamentos preconceituosos de muitos que não a conhecem. Devemos ter paciência com essas pessoas e tentar ensiná-las de que não é bem assim. Obviamente nem todos os games possuem uma densidade complexa de personagens e enredo. A maioria dos jogos é focado no entretenimento, o que é válido, afinal, nasceram com o propósito para nos divertir. Mas estes games não são o foco do texto. A Wikipédia define a filosofia como “o estudo de problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, a verdade, aos valores morais e estéticos, à mente e à linguagem”. Esta definição nos serve para o assunto tratado aqui. Diversos gamers da geração 2010 acreditam que Filosofia e História começaram com a saga Assassin’s Creed. Para eles eu digo: vocês estão extremamente errados. Filosofia em games está enraizado em sua essência, embora muitos games foram esquecidos ou talvez nem notado. O exemplo que mais me vem em mente é Final Fantasy IV (1991), constituído de dramas pessoais sobre o que é certo e errado vividos pelo protagonista Cecil. O quarto game numerado da franquia trata de temas complexos que necessitam de sensibilidade e atenção para perceber, como tentativa de suicídio, abuso mental, culpa, abandono, megalomania, solidão, ganância pelo poder, genocídio, a luta pela paz mútua unindo todas as raças, entre outras dezenas de comportamentos humanos em conflito em um emaranhado de acontecimentos. Ainda nos JRPGs, um dos jogos com maior carga filosófica dos games, e um dos meus favoritos, é Xenogears (1998): um entendimento sobre o fluxo do universo e da vida. Essa obra prima é complexa com um orçamento bastante limitado para os dias de hoje. A base de Xenogears é justamente tudo que a filosofia estuda e tenta explicar. Logo no início, temos o protagonista desmemoriado, Fei, que vai se questionando durante toda a jornada, apresentando seu Ego, Supergoego e Id, conceitos do psicanalista Sigmund Freud (1856-1939). Para quem não sabe o que são esses nomes, uma breve analogia: imagine um espelho com sua imagem. Quebre-o e sobra três pedaços, cada um mostrando sua imagem. Não entendeu? Basicamente os três são modelos hipotéticos estruturais da mente que, segundo Freud se divide em três instâncias. Cada um representa você, mas em um aspecto diferente. Inicialmente, o jogo trata do conflito entre os três processos mentais no protagonista Fei. Mas este é um dos pequenos elementos desenvolvidos no decorrer na narrativa. Devo mencionar que a maturidade como os temas são tratados é diferente até para os padrões dos games de hoje em dia. E mesmo sendo um jogo oriental, não possui personagens andrógenos, tratados de forma sensível e madura. É incrível a quantidade de informações que esse game expõe e mencionei apenas um aspecto ínfimo dele. A única recomendação que posso fazer é que você jogue essa maravilha, pois não irá se arrepender. Shadow of the Colossus (lançado originalmente em 2005 com um remaster em 2018) possui um enredo silencioso e interpretativo. Como protagonista temos o corajoso Wander. Com certeza não o mais inteligente, mas com certeza respeitável por suas proezas em escaladas. As flechas são usadas estrategicamente para chamar atenção dos “bichinhos”, muitas vezes maiores que o Everest! A jogabilidade e a trilha sonora são insanas, mas vou me ater sobre a filosofia contida no enredo. Wander viaja para os confins do mundo, fechando um acordo com um deus/demônio. O acordo é reviver Mono, uma garota que morreu sacrificada por motivos… Não nos é dito o motivo. As razões dessa morte não mudam o fato para Wander de que ela está morta e ele precisa encarar a jornada para revivê-la, mas a teoria mais aceita é que Mono foi sacrificada por um costume religioso tribal. Wander liga o foda-se para os porquês de sua morte, desafia seus superiores, rouba um artefato sagrado e sai em busca de reviver essa garota. Dormin, o deus/demônio diz para Wander que, com tal artefato, mate dezesseis colossos, aparentemente partes da natureza do local, imbuídos com fragmentos da alma dele. Os colossos são criaturas inocentes que apenas dormem, possuindo uma vida entediante. O deus/demônio ainda avisa que Wander não irá se dar bem no final. Mas quem disse que nosso protagonista se importa, desde que Mono seja revivida? Em uma atitude extremamente egoísta e insana, Wander sai em busca de assassinar tais criaturas. Ele não se importa com as consequências de eliminar essas criaturas, seja para o mundo ou para ele mesmo. Ele simplesmente quer ressuscitar a pessoa que ama, um humano seguindo seus sentimentos. Desejar o bem para quem amamos também é uma forma de egoísmo. O desfecho dessa história você só saberá quando zerar esse magnífico game. Metal Gear é uma série de games que sempre teve um excelente gameplay e ótima trilha sonora. Os personagens são extremamente cativantes e bem trabalhados, além que o enredo possui seu charme de espionagem e “fantasia na realidade”, fascinando milhões de pessoas. São diversos temas trabalhados na saga, basicamente conflitos políticos, guerras e suas devastações e o seu fator psicológico em todos os personagens da trama. Quem é o verdadeiro vilão? Em quem acreditar? Qual o lado certo? As motivações e o entendimento sobre a complexidade humana e a tentativa de compreensão de suas decisões fazem de Metal Gear uma narrativa fascinante e madura. Em especial destaco Metal Gear Solid 3: Snake Eater (lançado originalmente em 2004 com um remake em 2025), um game sobre o sacrifício da própria honra pelo bem de todo e que de certa forma fez eu ter um apreço em acompanhar política e, consequentemente, história. Para a sétima geração de consoles pensei em falar de Dark Souls, porém iria me perder na vastidão