ADS da Série Game of Thrones – Parte 3

Na segunda parte (https://teiasdahumanidade.com.br/2026/08/14/ads-da-serie-game-of-thrones-parte-2/) fomos apresentados aos personagens e alguns temas musicais da nossa jornada. Com algumas arestas a serem aperfeiçoadas, vamos olhar com mais atenção sobre o segundo episódio (The Kingsroad). O segundo episódio abre com percussão insistente da faixa To Vaes Dothraki,que representa a marcha de soldados de armadura, mas sim o ritmo orgânico e incessante dos cascos dos cavalos. Os Dothrakis são os senhores dos cavalos, e a música se move na mesma cadência de sua montaria. Ao ouvirmos o duduk, a câmera corta para uma Daenerys cansada, demonstrando que não se sente segura naquilo que agora ela deve chamar de “família”, entre os dothrakis. Sor Jorah Mormont conversa com ela, explicando algumas coisas sobre os senhores dos cavalos, enquanto isso, percebemos Dany observa seu marido, e a mesma melodia de Love in the Eyes é ouvida. Em vez do tom medieval europeu de Westeros, essa faixa remete a instrumentos de cordas das estepes da Ásia Central, evocando um povo que vive ao ar livre, longe das grandes fortalezas de pedra. O uso do modo menor com ornamentações específicas cria uma sonoridade propositalmente “exótica” e misteriosa para o público ocidental, marcando o choque cultural que a própria Daenerys Targaryen está vivenciando ao ser inserida naquele mundo. Numa cena totalmente original feita para o seriado, vemos Cersei Lannister visitando Catelyn Stark no quarto de Bran Stark, que permanece em coma após a queda da torre. A música acompanha a transição emocional do diálogo. Inicialmente temos melodia melancólica executada por um violino quando Cersei relata a perda de seu primeiro filho com Robert Baratheon, um bebê “de cabelos pretos” que faleceu de febre. Conforme a conversa se aprofunda e Cersei demonstra uma rara vulnerabilidade e empatia maternidade-com-maternidade, a música apresenta o dulcimer como figura de ambiguidade emocional. Essa faixa A Bird Without Feathers (em referência ao bebê de Cersei) encontra-se num modo menor, não apenas para expressar o luto por uma criança perdida, mas por carregar uma tensão da dor da Rainha com a tragédia iminente que cerca a família Stark, pois além dos Lannister estarem envolvidos no acidente de Bran, o espectador recebe uma dica para uma das reviravoltas da série no diálogo e na presença do dulcimer nessa faixa, refletindo mais uma vez o conflito interno de um personagem. Quando Jon Snow vai se despedir de Arya e lhe entrega uma espada, o abraço entre ambos é coroado com uma melodia triste que será característica e dará origem ao tema da família Stark. No próximo corte vemos que Jon irá se despedir do ainda em coma Bran. Ao falar com ele, ouvimos completamente o tema Stark, faixa que será conhecida como Goodbye Brother. Ramin Djawadi tomou uma decisão consciente ao centralizar a melodia principal em um violoncelo solo. Seu timbre, por ressoar próximo da frequência do peito e da voz humana, transmite uma sensação profunda de luto, sobriedade e melancolia, mantendo a atmosfera pesada, sombria e terrosa, espelhando o próprio Norte dos Starks — frio, rígido e sem ornamentos. A música se apoia no modo menor natural (eólico), o modo por excelência do desespero e da resignação na tradição ocidental: Como suas frases As frases não “sobem” com esperança; elas frequentemente deslizam para baixo, sugerindo o peso físico da dor, o desânimo e a aceitação do destino. O acompanhamento ao fundo consiste em notas sustentadas (pedais de cordas) que se movem muito devagar. A harmonia transita entre a tônica menor (i) e o subdominante (iv) ou dominante menor (v), criando uma sensação de estagnação temporária — como se o tempo estivesse congelado na dor do adeus. A peça atinge seu clímax emocional justamente ao retratar o desespero e o colapso de Catelyn Stark. Quando Ned vem se despedir para partir para Porto Real levando Sansa e Arya, deixando um Bran inconsciente na cama após a queda, Catelyn afunda em um estado catatônico de vigília e negação. A música traduz perfeitamente esse estado mental: um luto em vida. Não é uma dor raivosa ou explosiva, mas uma tristeza paralisante. Do ponto de vista narrativo, Goodbye Brother não é apenas a despedida de um momento, mas sim o tema de separação definitiva. Cada repetição do tema nas temporadas seguintes relembrará a audiência de que, a partir daquele ponto em que Ned deixa o Norte, a casa Stark nunca mais estará segura. Após assistirmos a despedida de Jon com Robb somos brindados com a faixa-título do episódio, The Kingsroad, vemos a comitiva real deixando Winterfell. O rei Robert Baratheon e Eddard Stark partem rumo a capital, enquanto Jon Snow toma o caminho oposto, em direção a Muralha. Essa música serve como uma ponte de transição dramática e é construída justamente para sustentar a dor das separações da família Stark. A peça é construída em três momentos perfeitamente sincronizados com o ritmo visual da cena: uma entrada solene com o tema Stark; a diminuição do arranjo no diálogo entre Ned e Jon; e um crescendo quando ambos partem. A entrada solene se inicia com percussão e o violoncelo grave, estabelecendo a nobreza e o peso nortenho. A melodia expõe o tema clássico dos Stark. No meio da faixa, o volume da orquestra cai drasticamente. Restam apenas cordas suaves e notas sustentadas em pianissimo, criando o silêncio necessário para a despedida entre Ned Stark e Jon Snow no meio da estrada. A faixa encerra com um crescendo vigoroso das cordas e marcadores de percussão contidos, espelhando os cavalos em movimento e o distanciamento físico definitivo entre pai e filho. A faixa permanece ancorada no modo menor eólico e sua harmonia não caminha para uma resolução, justamente para refletir a promessa de Ned: “A próxima vez que nos vermos, falaremos sobre a sua mãe. Eu prometo.” Na estrada, Ned e Robert conversam sobre trivialidades até o rei revelar do casamento de Daenerys Targaryen e a preocupação que ele tem com o assunto, algo que Ned refuta logo de cara. Para dar dramaticidade a transição quando o rei declara “Tem uma guerra chegando,