Nintendo DS é o meu portátil preferido, até porque foi o único que comprei. Concordo que o PSP tem games excelentes como Final Fantasy Crisis Core, Kingdom Hearts Birth by Sleep e Metal Gear Solid: Peace Walker, além de contar com um sistema que permitia emulador de Game Boy Advance e Playstation 1.
Pelo primeiro parágrafo parece que reconsiderarei, porém não. Até porque só joguei no PSP do meu primo, enquanto o DS eu tinha centenas de games e jogava madrugada afora durante as férias e depois durante as aulas do meu primeiro ano do Ensino Médio.
O Nintendo DS e seu sucessor, o 3DS, foram máquinas de dinheiro da Nintendo antes do advento do Switch. Não importando os erros que eles façam com os consoles, como o Wii e o Wii U, esses portáteis foram garantias de que a Nintendo não virasse uma nova Sega.
Na vastidão do catálogo de DS, alguns foram esquecidos pelas próprias empresas que o fizeram, ou que foram esquecidos porque a empresa que o fez faliu.
Adventures são jogos perfeitos para o DS. Eu tinha muito receio com esse tipo de jogo, por conta de King’s Quest, ao jogar um tempo e nem saber o que fazer porque não entendia inglês.
O receio acabou quando joguei Hotel Dusk: Room 215, jogo de 2007, desenvolvido pela finada Cing. No ano 1979, você controla um ex-policial chamado Kyle Hyde, que deixou a força policial depois de uma experiência traumática: ele foi obrigado a atirar, e supostamente, matar seu melhor amigo, e também policial, Brian Brandley, depois de descobrir que Brian era corrupto e negociava com a organização criminosa chamada Nile.
Kyle arranja um trabalho como vendedor ambulante de porta em porta para a empresa Red Crown. Mesmo achando esse trabalho uma porcaria, mas como ele mesmo admite, não tem nada melhor para fazer, e precisa de dinheiro. Apesar de tudo isso, ele ainda ache que Brandley não morreu e tem esperanças de encontrá-lo de novo, mesmo sendo o cara que atirou e viu ele cair no mar. Mas Kyle é otimista, pelo menos neste ponto.
Ed Vincent, o chefe de Kyle da Red Crown, o envia para entregar um pacote no Hotel Dusk, que dá nome ao joga. Kyle se hospeda no quarto 215, que tem a fama de realizar desejos das pessoas que se hospedam nele. Eventualmente, Kyle descobre que esse Hotel tem muito a ver com o seu passado, com Brandley e a Nile. Mesmo sendo uma conveniência do roteiro o protagonista ir a um hotel relacionado ao passado dele, a narrativo do jogo é excelente e nada mais é forçado.
Mas como um mero vendedor descobre essas tramoias todas? É porque, como um ex-policial, Kyle é uma das pessoas mais curiosas que eu já vi em um game. Mas antes disso, deixe-me falar como o jogo funciona.
O game utiliza muito bem os recursos do DS. Primeiro, para jogá-lo, você precisa segurar o DS de lado, como um livro. Na tela da direita, você controla Kyle, pelo mapa, usando a caneta Stylus, enquanto na tela da esquerda fica a visão que você tem dos cenários em 3D, exceto pelos personagens que são 2D. Obs: você pode alternar entre as telas caso seja canhoto.
Os cenários possuem gráficos excelentes para os níveis do DS. Você pode explorar o hotel, e conforme vai avançando no game, mais áreas são desbloqueadas. Falando em exploração, na tela da direita, além de controlar Kyle, você pode interagir com o cenário através de ícones na tela. Elementos clássicos: ícone da porta para abri-las, o bonequinho para conversar com pessoas, o caderno para anotações, salvar o jogo, ver informações sobre os personagens ou desenhar algo que venha na mente do protagonista.
A lupa serve para investigar uma área mais de perto e ver as observações de Kyle, utilizado uma flecha para escolher qual objeto quer investigar. A maleta, marca registrada do protagonista, é onde se guarda os itens.
O jogo é desafiante e você se verá empacado, sem ter ideia para onde ir ou o que fazer, lutando contra a vontade de procurar um “detonado”. Quando joguei, evitei ao máximo, ficando furioso e com dor de cabeça pela minha incapacidade.
Sobre conversar com NPCs é um pouco complicado, já que não é apenas conversar. Como Kyle é extremamente curioso, durante os diálogos irão aparecer dúvidas na mente do protagonista, representados com um “?”, e os NPCs devem responder.
Não importa se a pessoa não quer falar sobre o assunto, não importa se ela meche com o passado, se vai magoar ou se vai fazer a pessoa infartar, Kyle não se importa e quer saber de tudo. Claro que essa chatice tem custo: pressionando muito ou escolher as respostas erradas podem levar ao Game Over.
As dúvidas de Kyle são divididas em três classes:
– Amarelo: só podem ser respondidas por determinada pessoa;
– Branco: podem ser respondidas por qualquer um;
– Vermelha: as mais raras, aparecem próximas aos finais dos capítulos, onde há uma conversa especial e decisiva com determinados personagens, sendo as conversas mais difíceis, já que muitas respostas levam ao Game Over e você será chutado do hotel. São como os “bosses” do game.
Tendo uma dificuldade alta para os padrões de game, ele exige muita paciência, mas é recompensador. A narrativa é bem construída e fluída fazendo o jogador não querer desligar o DS até descobrir os segredos do hotel. Todos os personagens são interessantes e digo TODOS mesmo. A imersão é tamanha que você começa a odiar ou amar os personagens pelas suas características e personalidades e não por serem desinteressantes.
A arte do game é espetacular. Mesmo sendo desenhada a mão, as expressões dos personagens demonstram perfeitamente o que eles são e como se sentem. Somando a trilha sonora impecável e ao jeito como a história é contada, cria-se uma atmosfera única ao jogo. Como o game se passa no inverno, jogá-lo na mesma estação aumenta ainda mais a imersão.
O game inteiro passa-se em um intervalo de cinco horas da tarde até as duas horas da manhã, divido entre dez capítulos, mas não se preocupe, não há um cronometro para passar cada capítulo. Dependendo de quanto tempo você ficar empacado, quinze minutos no tempo do jogo pode durar uma eternidade no mundo real, como a batalha do Goku contra o Freeza em Dragon Ball Z.
Para mim, o único grande problema do game é ser completamente linear, não existindo alternativas diferentes para completar os capítulos, tornando o fator replay inexistente. Entendo que as limitações do DS poderiam tornar isso inviável, mas não deixa de ser um problema não ter incentivo nenhum para voltar a jogar (a não ser que você esqueça o plot).
Outra coisa que pode incomodar, mas não creio ser um defeito, é que o jogo pode ser frustrante. Mas este é um dos motivos de eu adorar esse jogo, já que não crítico games por serem desafiadores ao público.
É um dos melhores jogos de DS e infelizmente é pouco conhecido. Portanto, se não jogou, JOGUE!
Mesmo sendo desconhecido, o game teve uma continuação, me surpreendendo. Não é pelo jogo ser desconhecido e nem pelo final não ter gancho para continuar, mas Hotel Dusk parece um jogo solo, onde a trama se desenvolve em um único local específico e como os desenvolvedores trariam Kyle novamente preso no mesmo local sem que pareça forçado?
CONTINUA…