Na primeira parte (https://teiasdahumanidade.com.br/2026/08/01/ads-da-serie-game-of-thrones-parte-1/) terminei prometendo uma análise da primeira temporada e agora estamos aqui na Parte 2, onde iremos ver sobre o primeiro episódio (Winter is Coming).
De maneira geral a primeira temporada tem uma trilha sonora bem contida, sendo utilizada principalmente como preenchimento do ambiente da cena, sendo poucas as cenas que possuem a sensação de chamar atenção do público aos sons musicais, talvez causado devido ao pouco tempo de composição que Djawadi teve.
A primeira cena da série é uma investigação sobre o paradeiro dos ditos “selvagens” em um cenário de floresta com neve. A cena é preenchida por pequenos sons metálicos gerados por computador para causar suspense, dando uma imersão mais profunda da cena ao espectador. Ao encontrar o acampamento dos “selvagens”, o patrulheiro se depara com cadáveres e sutilmente temos a presença de um violoncelo, aparentemente tocando notas desconexas, em referência a surpresa do patrulheiro. Mas é aqui que reside a genialidade de Djawadi: ele estabelece o centro tonal em Ré menor sem afirmar essa tonalidade por meio de cadências clássicas alternando elementos do modo eólio e do dórico, dando o suspense dela. Essa ausência de cadência conclusiva demonstra a instabilidade de estar além da Muralha, como se o perigo pudesse surgir a qualquer instante, o que é o caso, pois, um Caminhante Branco caça os patrulheiros e uma perseguição se inicia, tendo como pano de fundo a volta dos sons metálicos sendo marcados ritmicamente por uma percussão de alta intensidade.
Essa faixa, chamada North of the Wall, mostra versatilidade de Djawadi ao trabalhar uma escrita mais minimalista, algo que será evidenciado em diversos momentos da série.
Seguido da primeira cena, ouve-se pela primeira vez junto da abertura o Tema Principal, composto para cordas e percussão em Cm (Dó menor), este tom que será fundamental para diversos outros temas. A progressão tema é a seguinte: Cm – Ab – Eb – Bb (i – VI – III – VII), muito popularizada no cinema por Hans Zimmer, um dos professores de Djawadi, e no rock contemporâneo, como canções como Demons do Imagine Dragons e Boulevard of Broken Dreams do Green Day. E a psicologia musical ajuda a entender a escolha da progressão ao evitar a dominante (V), produzindo uma sensação de movimento contínuo, sem uma resolução definitiva. O efeito é de uma narrativa que avança incessantemente, exatamente como a câmera percorre o mapa de Westeros durante a abertura.
Outro aspecto importante é o ostinato, cédula rítmica que se repete diversas vezes durante a obra, do violoncelo, que apresenta o tema principal. Embora seja melódico, ele reforça continuamente o centro em Dó por meio da repetição e do retorno frequente à tônica. A estabilidade tonal não vem da harmonia funcional, mas da insistência do motivo melódico. Segundo o próprio Djawadi, esse ostinato é sempre utilizado sempre que os personagens entram num embate sobre o Trono de Ferro, símbolo máximo de poder na série, sendo a principal Ideia Fixa, o conceito estabelecido pelo compositor romântico francês Hector Berlioz, no qual consiste em ter um elemento musical fixo para aquele determinado personagem, cenário ou objeto em uma obra de música programática.
Somado a tudo isso vem a utilização de acordes com quintas abertas, oitavas e uma instrumentação densa, o que remete à música medieval e evita um excesso de definição harmônica. A orquestração, nesse caso, é tão importante quanto os próprios acordes na construção da atmosfera.
Vale notar que alguns trechos intermediários introduzem notas emprestadas e pequenas variações modais, mas a percepção global permanece fortemente ancorada em Dó menor.
Com a conclusão da abertura vemos que um dos patrulheiros da primeira cena sobreviveu e acaba sendo pego por um agrupamento de soldados. A movimentação dos cavalos é ritmada com o apoio da percussão característica da série. Cortando para um único cavaleiro chegando no castelo de Winterfell, o vislumbre do local é marcado por uma melodia lenta, que futuramente conheceremos numa faixa adiante como o tema oficial da família Stark, os “protagonistas da série”.
Corta para a apresentação da família num treino de arco e flecha: o patriarca Ned Stark, sua esposa Catelyn Stark e os filhos Robb, Bran, Rickon, Arya e Sansa. Também nos é apresentado Jon Snow, bastardo de Ned.
O dia tranquilo é interrompido com a chegada de um mensageiro avisando sobre a captura do patrulheiro, agora um desertor da Patrulha da Noite. Ned convoca seus homens e seus filhos para executá-lo por traição por abandonar sua ordem. Após executar o homem, que dizia ter visto os Caminhantes Brancos, Ned conversa com Bran sobre o dever do homem que dá a sentença também aplicá-la. Os Outros também são citados na conversa e aí a música volta a aparecer, de maneira discreta, procurando evidenciar um tom de suspense sobre uma ameaça que paira na cabeça de seus protagonistas.
A música continua soando junto as cordas conforme a cena é cortada e o pelotão de Ned encontra um cervo e um lobo gigante morto. Apenas os filhotes de lobo sobreviveram, mas não são lobos ordinários e sim Lobos Gigantes, dados como extintos ao Sul da Muralha. Todo o suspense entre a possível execução das crias e da adoção é posta. O som marca propondo que o mundo na terra dos Stark não será mais o mesmo.
Após vermos a cena que nos mostra a magnífica Fortaleza Vermelha, sede do rei em Porto Real, e sermos apresentados aos gêmeos Lannister, Cersei e Jaime, retornamos a Winterfell através de um voo de corvo, junto a faixa A Raven from King’s Landing. Em seus primeiros segundos somos apresentados ao dulcimer, um instrumento medieval onde cordas de aço são presas numa caixa acústica de madeira e são pinceladas pelos dedos do instrumentista ou percutidas por um martelo, e será recorrente durante toda a série. Nessa cena em particular soa suave, dando pouca sustentação com uma articulação limpa, procurando demonstrar que o corvo não atrás apenas uma carta, mas o fim da paz. Aqui Djawadi não dramatiza de forma exagerada, mas sim de forma intimista. Harmonicamente as quintas abertas e os acordes suspensos da escrita modal geram enorme ambiguidade, pois ela não afirma se é algo triste ou heroico, apenas o fim de um ciclo.
Com a vinda do rei para Winterfell, somos brindados com o primeiro tema a ser apresentado: The King’s Arrival, tendo o rei Robert Baratheon como expoente. Trazendo um medievalismo sonoro com um ritmo de marcha militar, onde os instrumentos de corda desenvolvem uma melodia grave sendo sustentado harmonicamente por trombones junto ao trotar dos cavalos denota uma transmigração entre imagem e som. Conforme a comitiva real vai chegando, a densidade da faixa vai crescendo até o rei descer de sua carruagem.
Ouvindo essa faixa e a anterior em sequência, percebe-se que Djawadi já começa a construir uma “geografia sonora”. Winterfell tende a ser associado a cordas graves, lentas e chorosas; Porto Real, por sua vez, recebe uma escrita mais cerimonial e luminosa. Essa diferenciação ainda é sutil na primeira temporada, mas se tornará um dos pilares da identidade musical da série nas temporadas seguintes.
Nas criptas de Winterfell, o violino choroso dos Starks volta para enriquecer o ambiente com o luto de Robert por Lyanna Stark, irmã de Ned. Uma pequena melodia que não entrou na trilha oficial e que não teve continuidade em outras faixas, mas que também representa uma transição para além do continente de Westeros, onde seremos apresentados a princesa exilada Daenerys Targaryen e seu irmão Viserys.
Aqui temos a faixa A Golden Crown, uma peça breve que servirá como um tema para o próprio Viserys. A música começa justamente quando ele remove o vestido da irmã para examiná-la antes de entregá-la em casamento a Khal Drogo. Harmonicamente, a música é construída sobre acordes sustentados e pedais graves, evitando qualquer sensação de repouso ou resolução. A escrita modal e a lenta movimentação das vozes criam uma atmosfera de desconforto e fragilidade, enquanto a orquestração permanece deliberadamente contida, permitindo que a tensão psicológica seja percebida mais pela textura do que pela melodia. Do ponto de vista narrativo, funciona como o retrato da condição de Daenerys naquele instante da história. Não há romantização nem erotização da cena; a trilha enfatiza o desequilíbrio de poder entre os irmãos e a perda de autonomia da jovem princesa, tratada por Viserys como um instrumento para recuperar o Trono de Ferro.
A introdução de Khal Drogo e seus Dothrakis é feita com percussão ritmada junto aos cascos de cavalos em cena. Enquanto Viserys sussurra no ouvido de sua irmã o futuro que a aguarda como esposa daquele homem gigantesco, a música soa melancólica, mostrando a falta de esperança de Daenerys com esse casamento. Quando lhe é pedido para que se mostra a Drogo, um instrumento novo começa a tocar e ele será extremamente importante para a trilha sonora, o duduk.
Instrumento de origem desconhecida, o duduk é utilizado pelas tribos nômades do Cáucaso, ao qual George R. R. Martin se inspirou para conceber a tribo dothraki. O timbre do duduk será utilizado como uma Ideia Fixa para os dothrakis.
De volta a Winterfell, no banquete em homenagem ao rei e a nomeação de Ned Stark como Mão do Rei temos o primeiro exemplo de música incidental: músicos colocados em cena para tocarem “ao vivo” com a sonoridade medieval para exemplificar a inspiração histórica do seriado.
Ao final do banquete somos direcionados aos aposentos de Ned e Catelyn Stark. Meistre Luwin chega e os entrega uma carta. Ali contém a ideia de que os Lannisters conspiraram para matar a última Mão do Rei. Diante da gravidade, cordas soam gravemente como reflexo da dramaticidade. O dulcimer vai aparecendo levemente conforme Catelyn e Luwin discutem e a câmera foca apenas no rosto de Ned, evidenciando o conflito interno do personagem e a decisão difícil que ele deve fazer ao aceitar o cargo ou não de Mão.
Voltamos aos Targaryens e testemunhamos a cerimônia de casamento de Daenerys com Drogo, recheado de percussão e gritos ululantes dos dothrakis para evidenciar os costumes brutais esse povo. Também é nessa cena que somos apresentados a Sor Jorah Mormont, um cavaleiro exilado de Westeros.
Quando Illyrio Mopatis vai presentear o casal com uma arca, Daenerys encontra três ovos de dragões petrificados. Nesse momento, pequenos sons de vento são ouvidos e a faixa Love in the Eyes se inicia. O duduk vem declamando conforme Drogo anda seguido de sua esposa, presenteando-a como uma égua prateada. A música ganha densidade com o dulcimer e percussão conforme ambos cavalgam, parando num penhasco e tendo a primeira noite. Aqui, temos o primeiro vislumbre do tema de Daenerys, que será definido somente na próxima temporada.
Na próxima cena vemos o rei e Ned saindo para caçar, observados por Brandon Stark, o filho do meio. Um hábil escalador, a criança começa a subir as pedras das torres de Winterfell e com isso a faixa Things I Do for Love se inicia. Ela é uma variação de A Raven from King’s Landing, agora com um tom otimista para refletir o sentido aventureiro de Bran. Ela começa a ganhar contornos dramáticos com a presença de um violoncelo porque nos é revelado que os gêmeos Lannister mantém uma relação incestuosa.
Após Bran ser atirado da torre por Jaime, os créditos finais sobem e ouvimos a faixa Game of Thrones uma variação do tema principal apresentada com um andamento mais lento, uma instrumentação mais intimista e uma dinâmica bastante reduzida. O ostinato característico é bastante suavizado, dando lugar a cordas sustentadas e frases melódicas mais espaçadas.
Falamos apenas do primeiro episódio e esse texto já está gigante… Então sem mais delongas, nos vemos na terceira parte pra sabe lá Deus quantos episódios estarei cobrindo. Até a próxima.