Vamos falar sobre música. Com meu defeito-qualidade de me aprofundar ao máximo em tudo aquilo que em vício, fui me aprofundar no artista inglês que se reinventava como trocava de roupa: David Bowie, o camaleão do rock.
Apesar de sua genialidade e seu legado musical ser o mais importante, não é apenas isso que torna Bowie fascinante, mas sim todo o contexto. A mitologia sempre esteve em volta do rock e da música popular em geral – talvez iniciada por Elvis Presley – e músicos passarem a serem idolatrados como deuses.
Mas Bowie foi o primeiro que usou essa mitologia do rock conscientemente a seu favor durante toda sua carreira, misturando música com sua imagem, estética e ficção científica, criando assim um ambiente “místico” e acima de tudo, misterioso em volta de si mesmo e de seus álbuns. Muito disso se deve a suas infames personas.
Bowie sempre foi fascinado por ficção e sonhava se envolver com a dramaturgia (carreira que seu filho, Duncan Jones, seguiria décadas depois), mas ao invés de enterrar essa vontade nos confins de sua memória, ele resolveu misturá-la com seu talento musical criando histórias de ficção em volta de alguns álbuns e personagens extremamente excêntricos que ele mesmo interpretava, algo único e que marcaria o rock para sempre – tendo inspirado não só a indústria de música, como também a de cinemas, quadrinhos e games.
Mas suas personas malucas não foram coisas vazias e sem sentido apenas criadas para chamar a atenção e só isso mostra uma profundidade psicológica que é vital para entender o que se passava pela cabeça de um homem misterioso quanto Bowie. E é disso que pretendo escrever, aproveitando para falar de sua carreira no processo.
Ao final dos anos sessenta, Bowie estava longe de ser a lenda que seria mais tarde. Seus singles eram um fracasso atrás do outro, e seu primeiro álbum, David Bowie, foi praticamente esquecido. Olhando com os olhos de hoje, o álbum ser lançado em primeiro de junho de 1967, mesmo mês que Sgt. Peppers’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles, percebemos que não tinha como vingar.
Pensando em desistir, Bowie cogitou virar monge budista, e não só se juntou a ordem monástica devido ter conhecido Lindsay Kemp. Kemp dissuadiu o cantor da ideia e começou a dar aulas de dança e mímica. E foi com a mímica que as personas da década de setenta surgiram. Além disso, as aulas amadureceram e deram mais criatividade ao futuro astro.
Outra pessoa importante para a criação das personas foi o irmão de Bowie, Terry Burns, que sofria de esquizofrenia. A loucura já era algo recorrente na família de Bowie, e a esquizofrenia de seu irmão abalava-o muito, criando uma paranoia na mente do cantor durante a década de setenta: o medo de ficar louco. Apesar de simpático ao irmão e, de certa forma romantizá-la em All the Madmen, Bowie morria de medo. Talvez a própria música tenha sido composta para aliviá-lo do medo, mostrando simpatia pela loucura em geral.
Vendo suas habilidades como mímico a chance de misturar música com dramaturgia, Bowie pretendia fugir de sua loucura. E assim nasceram suas personas, uma forma que ele encontrou de escapar de si mesmo e de transcender no processo. Sua primeira persona foi um protótipo para o futuro.
Inspirado pela exploração espacial trazida pelo filme 2001: Uma Odisseia no Espaço e a chegada do homem à lua, Bowie criou em 1969 Space Oddity, um dos maiores hit da carreira e o mesmo por alavancá-la.
A canção conta a história de Major Tom, um astronauta que é lançado para fora da Terra e acaba sendo consumido pelo vazio do espaço, sem poder fazer nada.
Há diversas teorias para o verdadeiro significado da canção, como uma viajem de Major Tom pelo espaço ser uma representação dos efeitos da heroína e outra de que Bowie a escreveu com sentimentos de se distanciar da Terra e ficar longe de suas complicações, e de fato desconexão com a realidade é forte na música. Essa versão faz ainda mais sentido devido a Bowie tê-la escrito após o término com sua então namorada, Hermione. Somando a insegurança da carreira, a separação e a morte de seu pai, mostram o abalo sofrido pelo cantor.
Porém, Major Tom não era uma persona, mas a criação desse personagem foi vital para as personas que surgiriam na década seguinte. Bowie chegou a encarnar Tom em um vídeo promocional em 1969. Dizem que após o encerramento da gravação, um dos filmadores chamou Bowie de Major Tom. O astro teria ficado feliz, pois pela primeira vez era outra pessoa.
Nos anos setenta, mais especificamente em 1971, Bowie ainda não tinha o reconhecimento que queria. Space Oddity foi um sucesso, mas não se podia dizer o mesmo dos seus dois próximos álbuns, Space Oddity (assim como o primeiro, também se chamava David Bowie, mas mudou devido ao enorme sucesso da canção), de 1969, e The Man Who Sold the World, de 1970, que apesar de ser sensacional, só ganhou reconhecimento décadas mais tarde com o cover da música título pela banda Nirvana.
Bowie vivia na sombra do sucesso de seu hit, temendo se tornar o artista de apenas uma obra. Isso mudou com o quarto álbum, Hunky Dory, de 1971. Um álbum muito mais leve, contendo várias canções usando piano e guitarras acústicas, ao contrário do anterior, quase Metal.
Hunky Dory fez relativo sucesso, e músicas como Changes e Life on Mars garantiram que Bowie não seria o artista de apenas um hit. O álbum também apresentava Quicksand, a canção que retrata a paranoia de Bowie com a loucura.
Apesar do sucesso do álbum, ele não era o suficiente para David.
Então, para o próximo álbum, Bowie resolveu fazer diferente. Ao invés de almejar o sucesso, ele criou uma mitologia em torno do álbum, contando a história de sua primeira e mais conhecida persona: Ziggy Stardust, um rockstar bissexual alienígena que já tinha sucesso, e mais do que isso, era adorado como um salvador pelos fãs, trazendo uma mensagem de esperança para um mundo que iria morrer em cinco anos. Eventualmente, Ziggy se deixa levar pelos prazeres humanos e é consumido pelas drogas e sexo, sendo morto pelos próprios fãs ensandecidos em pleno palco durante a última música: Rock n’ Roll Suicide (existem várias versões do enredo, porém está é a que mais acredito representar o que Bowie pensava da própria obra).
E assim, no dia seis de junho de 1972 é lançado o álbum mais emblemático da carreira de David Bowie: The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.
Para criar Ziggy, Bowie se inspirou em diversas personalidades, e talvez o músico Vince Taylor a principal delas. Taylor foi um cantor excêntrico que fez um relativo sucesso no final dos anos cinquenta, mas acabou consumido pela autoidolatria e caiu no esquecimento. Completamente louco, Taylor dizia-se a reencarnação de Jesus Cristo e salvador da humanidade.
Além disso, Ziggy foi criado para ser uma paródia dos excessos dos rockstars da década anterior: os anos sessenta e toda a promiscuidade da contracultura, um movimento popular contra o capitalismo e a opressão da sociedade. Este movimento era formado por jovens cheios de sonhos e esperanças, com atitudes nobres como lutar pela paz mundial. O problema é que como toda causa popular séria, foi banalizado por imbecis que não sabiam contra o que estavam lutando.
Simbolicamente o movimento encerrou-se com a música God de John Lennon, onde o pai dos hippies proclama: “O sonho acabou”. No entanto, John estava enganado. Bowie deu vitalidade a esse sonho. Ziggy Stardust não era só uma criatura excêntrica usando maquiagem, mais do que tudo, era um símbolo de liberdade, em todos os seus sentidos.
Foi então que o mito virou realidade, mas diferente do Ziggy fictício, o real não duraria nem cinco anos.
Ao contrário de Major Tom, Ziggy realmente foi encarnado por Bowie, e os seus shows eram mais que um simples show de Rock, eram uma peça teatral. Os jovens o adoravam quase realmente como salvador e os seus shows eram um culto a ele. Depois de sua insana performance no programa Top of the Pops em junho de 1972, cantando a clássica Starman, influenciaria diversos jovens da época que viriam a se tornar músicos, principalmente do movimento punk no início dos anos oitenta. Bono Vox, da banda U2, certa vez afirmou que o impacto de Bowie na Inglaterra foi o equivalente ao de Elvis Presley nos EUA.
O problema é que Bowie perdeu controle sob sua persona, e acabou sendo consumida por ela.
Assim como na história do Ziggy, Bowie acabou caindo nos vícios do Rock e dominado por sua persona, virava uma paródia dela mesmo. O mito se tornou real; até mesmo a parte ruim. Essa ascensão meteórica somado com a fama sufocante fizeram Bowie questionar sua sanidade mais do que nunca. Sua persona, uma arma criada para poder escapar da loucura acabou virando contra si mesmo, aproximando-o do que ele mais queria fugir. Bowie associou-se tanto com Ziggy que não conseguia mais desligá-lo após o fim do show, tanto que ele dava entrevistas não como David Bowie, e sim como Ziggy Stardust (foi em uma dessas que ele disse ser bissexual).
Isso foi dominando sua vida de tal maneira ao ponto de não aguentar mais e em pleno auge, matar sua criação, antes que ela o “mata-se”.
E então, no dia três de julho de 1973, Bowie anunciou oficialmente o fim de Ziggy Stardust em pleno palco, para o choque de todos, até mesmo da sua própria banda, The Spiders from Mars, tocando em seguida a última música, Rock ‘n Roll Suicide, provando mais uma vez que o mito se tornou realidade.
Mas a influência de sua persona alienígena era tão forte para Bowie que mesmo após anunciar o fim dela, não conseguiu se desvincular completamente, sendo a persona seguinte uma extensão de Ziggy.
Assim como boa parte dos jovens ingleses que cresceram nos anos cinquenta, Bowie sempre foi fascinado pelos EUA, sendo fã principalmente de Little Richard. Dizem que quando David ouviu a música Tutti Frutti, ele teria dito: “Eu ouvi Deus”. Bowie era tão fanático pelos EUA que quando criança gostava de futebol americano.
Todo esse fascínio pelos EUA se misturou com estranheza e decepção quando Bowie visitou a América durante sua turnê em 1972, ainda como Ziggy Stardust. Ele por um lado estava feliz por tocar na terra dos seus ídolos musicais, mas por outro queria sair de perto daquelas pessoas estranhas o mais rápido possível. E se a estranheza da sociedade americana chocou Bowie, significa que ela era muito estranha mesmo. Essa confusão de sentimentos culminou em uma “nova” persona, Aladdin Sane, que na verdade era um jogo de palavras para “A lad insane” (do inglês, “um rapaz insano”). Não importava o que Bowie fazia, o tema da loucura sempre o perseguia.
O clássico raio de Aladdin Sane representaria essa dualidade de pensamentos, mas também há relatos de que simplesmente foi um improviso na maquiagem durante uma sessão de fotos.
Sob essa persona, Bowie lançou apenas um álbum, com o mesmo nome, Aladdin Sane saiu em 1973. Esse álbum poderia ter sido chamado de “Ziggy vai para América” porque é isso que ele é. São observações de Ziggy sobre a cultura e a sociedade norte-americana. Outro destaque do álbum é o pessimismo em relação ao futuro. A música título, por exemplo, tem do lado do nome Aladdin Sane, os números 1913, 1938 e 197?, cada data representando os anos anteriores das duas primeiras guerras mundiais, mostrando que Bowie acreditava que a Terceira viria durante a década de setenta. Ainda em 1973, Bowie lança Pin Ups, um álbum de covers de artistas ingleses que ele curtia nos anos sessenta, nada demais. Mas a capa é linda.
Em 1974, após a tentativa frustrada de criar um musical baseado no livro 1984, Bowie teve que se reorganizar completamente e decidiu criar uma história própria, que seria o conceito de seu próximo álbum. Em um mundo distópico e pós-nuclear, uma gangue de jovens domina o que restou de Manhattan – agora chamada de Hunger City (Cidade Faminta), uma cidade podre e decadente, infestada por mutantes, violência, e talvez por trás de tudo isso, esperança. Essa gangue tinha como liderança a persona de Bowie, Hallowen Jack, e eles chamavam a si mesmo de Diamond Dogs (Cachorros de Diamante).
Se no álbum de Ziggy, Bowie cantava desesperado sobre o iminente fim do mundo, em Five Years, música título de Diamond Dogs, ele parece celebrá-lo. Começando com uma narração como se estivéssemos presenciando uma história de terror. Esse clima é quebrado completamente por uma das frases mais marcantes da carreira de Bowie, dando início a “festa”: “This ain’t rock and roll! This is genocide!” (Isso não é rock and roll! É um genocídio!).
Abraçando com alegria sua natureza selvagem, os Diamond Dogs eram punks em uma época em que punks não existiam. De fato, com Diamond Dogs, Bowie mostrou que estava à frente de seu tempo ao prever a explosão do cenário punk que viria poucos anos mais tarde. As roupas rasgadas, a atitude arrogante, tudo isso está presente em Hallowen Jack e no conceito da gangue da Diamond Dogs. Se existem dúvidas é só assistir ao vídeo da música Rebel Rebel, uma das raras encarnações de Hallowen Jack que existe, pois a maioria dos shows que Bowie fez com essa persona não foram filmados.
E falando em shows, Bowie não pretendia deixar o projeto de fazer musical de lado, porém, ao invés do livro 1984 como base, ele resolveu recriar a cidade de Hunger City de Diamond Dogs no palco e fazer apresentações teatrais cantando as músicas do álbum. Mas nessa época Bowie começou a se entediar com o rock e estava desgastado fisicamente com a maratona de turnês que tinha feito nos últimos anos. Com o projeto vetado, o cantor deixou Halloween Jack de lado pelo resto da turnê Diamond Dogs Tour, que havia mudado de nome para The Soul Tour.
Reinventando-se, Bowie passou do rock para soul, ou melhor, o plastic soul, algo que vinha sendo notado nas últimas canções de Diamond Dogs. Esse interesse culminou no seu álbum mais diferenciado até então: Young Americans, de 1975, fazendo relativo sucesso, principalmente por sua parceria com John Lennon, na canção Fame.
Não era só o estilo musical do álbum que era o diferencial. Desde a criação de Ziggy, não havia uma persona no álbum. Bowie mudou sua aparência para um típico cantor de soul, mas isso não havia nada além da vestimenta. No entanto, não significava que ele havia resolvido sua paranoia com a loucura. Pelos fatos, ela havia piorado.
A proximidade do astro com as drogas sempre foi estreita, mas nessa época ele desenvolveu seu vício por cocaína, algo que iria atormentá-lo por anos, e apesar de todo sucesso, se sentia cada vez mais inseguro com sua carreira e consigo mesmo. Isso é evidenciado pela faixa bônus de Young Americans (1975) chamada Who can I Be Now?, lançada em 1991.
Sempre me perguntei por que essa música foi tirada do álbum. Imagino por ter uma letra muito pessoal. Bowie questiona se ele pode ser real com tantas personas e alter-egos, mas mais do que isso, ela é um pedido de ajuda de alguém beirando a loucura. Não importava o que fazia, ele sempre voltava com o tema da loucura.
O interesse de Bowie por ocultismo surgiu no começo da década de setenta, como visto na música The Width of a Circle do álbum The Man Who Sold The World, música essa que tem uma letra bizarra sobre invocar e fazer sexo com um demônio, ou um deus, ou um espírito. Na faixa Quicksand do Hunky Dory há uma citação a sociedade secreta fundada por Aleister Crowley, a Golden Down. Mas em 1975, isso passou de interesse para obsessão.
Morando em Los Angeles para gravar o filme The Man Who Fell to Earth e vivendo em uma mansão de frente para o mar, Bowie encontrava-se em completo exílio. Criou-se lendas macabras de como era sua vida nessa mansão, mas o fato é que Bowie passava os dias sem dormir, com uma dieta de leite, pimentas e cocaína, guardando sua urina no refrigerador como “proteção mágica”, assistindo a filmes expressionistas, ouvindo discos de bandas como Kraftwerk e Neu!, lendo compulsivamente livros sobre OVNIs, ocultismo, conspirações, nazismo, gnosticismo e Cabala, desenhando o símbolo da Árvore da Vida em praticamente todos os cômodos.
A Árvore da Vida é um diagrama contendo dez esferas ou estações chamadas sefiras (o plural, em inglês, é Sephiroth), onde cada uma representa as energias da criação e um aspecto de Deus. Resumindo, a primeira esfera, Malkuth, representaria o mundo e a mente material, e a última, no topo da árvore, Kether, representaria a suprema unidade: o Paraíso.
Tudo isso permeava os pensamentos de Bowie em 71, agora em 75, ele já havia afundado completamente. Foi nesse estado mental que o astro criou o álbum mais sombrio de toda sua carreira: Station to Station, começando a gravar pouco depois das filmagens do filme The Man Who Fell to Earth.
Porém, esse álbum não é sombrio apenas pelas faixas (há até a bem humorada TCV15), como a música título, mas pelo contexto em que ele foi criado.
A música Station to Station é o ápice da carreira de Bowie. Ela é um resumo de toda sua loucura, sua paranoia, tudo o que abordou, desde ocultismo, Cabala, gnosticismo, Nietzsche, budismo, drogas. Ela não é apenas mais uma música do álbum, ela é o álbum. Dizem que o astro a gravou durante uma madrugada inteira usando apenas cocaína com os outros membros para mantê-los acordados. É também neste álbum que Bowie mostrou seu interesse com o cristianismo na faixa Word on a Wing.
É em Station to Station que temos a criação da persona mais bizarra de Bowie, The Thin White Duke (O Magro Duque Branco), descrito como um aristocrata fascista, um super-homem ariano cantando músicas de amor de maneira vazia, que apesar de ter uma aparência mais “normal” que as outras personas, era muito mais perturbador. Se as outras personas foram criadas para afastar Bowie da loucura, essa aqui é a própria personificação da loucura.
Bowie não conseguia sair da persona do Duke, assim como na época de Ziggy, e dava entrevistas controversas apoiando o fascismo na Inglaterra, e dizendo com admiração que Hitler foi o primeiro rockstar. Para inflar a questão, Bowie foi fotografado fazendo o gesto nazista, mas na verdade ele só estava acenando. Mesmo assim, ele foi alvo do movimento chamado Rock Against Racism, um movimento contra o racismo. Anos mais tarde, Bowie desmentiu que fosse fascista, e que estava sob influência do Duke, a quem o próprio chamou de monstro.
A música Station to Station repetia como um mantra que era tarde demais, mas não para Bowie, que mesmo encalacrado, conseguiu escapar de seu inferno se refugiando na Alemanha pós-guerra.
No começo dos anos setenta, The Stooges, a banda de Iggy Pop, estava acabando. Era uma banda energética, porém com pouco sucesso. Bowie admirava Iggy e via sua loucura e esquisitice com potencial para um futuro astro do rock. Os dois se conheceram, viraram amigos e Bowie conseguiu fazer a banda se juntar novamente para fazer um novo álbum, sendo mixado pelo próprio Bowie. Ray Power (1973) é considerado por muitos o primeiro e mais influente álbum de punk-rock. Bowie conseguiu transformar Iggy de um roqueiro fracassado viciado em heroína para um dos maiores símbolos do rock.
Em 1976, os Stooges tinham terminado, deixando um legado a ser seguido pelos jovens punks, enquanto a carreira de Iggy estava em decadência e seu vício em heroína continuava forte. Bowie também vivia sua vida viciado em cocaína e consumido pela loucura. Então, a dupla resolveu partir para a Europa, no caso de Bowie, querendo se distanciar o máximo possível de Los Angeles. “Eu quero que aquele lugar desapareça da face da Terra”, teria dito o cantor.
Após passarem por diversos lugares da Europa, Bowie e Iggy se estabeleceram na Alemanha Ocidental, em um bairro isolado e esquecido culturalmente, chamado Schoenberg. Bowie queria um recomeço, deixando a fama, o mainstream, as personas e, principalmente, sua loucura, escolhendo assim o lugar mais anônimo que conhecia, aliado ao interesse que desenvolveu pela cultura alemã.
O sentimento de recomeço aguçou sua criatividade, produzindo dois álbuns, os mais bem sucedidos da carreira solo de Iggy, The Idiot e Lust for Life, ambos de 1977. Somado a isso, houve uma parceria com Brian Eno, da banda Roxy Music, que resultou em três álbuns, ficando conhecido como a Trilogia de Berlim (apesar do nome, apenas um deles foi gravado totalmente na Alemanha).
A trilogia foi um recomeço para Bowie, marcando sua mudança de estilo como feito anos atrás em Young Americans. Os dois primeiros álbuns mostram a influência da banda alemã Kraftwerk, considerado os “pais” da música eletrônica, que consideravam sons de guitarra como algo pré-histórico.
O primeiro álbum, Low (1977), foi produzido na França. É o álbum mais depressivo e introspectivo de Bowie, influenciando a New Wave. Robert Smith, do The Cure, disse certa vez que este é seu álbum mais marcante de sua vida.
O lado A do álbum é conhecido como “day side”, pois é leve em comparação com o lado B, chamado de “night side”. Claro que o primeiro lado não é só alegria, como exposto na canção Be My Wife. Diversas pessoas apontavam que essa canção foi feita para salvar seu casamento com Angela Bowie, porém não creio muito na hipótese. A música trata de cansaço, indiferença (o próprio David mal toca na faixa) e desespero para sair da solidão, portanto “wife” é usado como algo simbólico, retratando com exatidão a vida do cantor.
Ainda no “day side”, há músicas como Always Crashing in the Same Car, uma metáfora para “cometer sempre os mesmos erros”, e outras mais literais como Sound and Vision. Sua composição é interessante: Bowie estava em seu quarto sentado ao piano frustrado e sem inspiração. A letra canta sobre alguém frustrado com o tédio esperando os presentes do som e da visão.
A primeira faixa do “night side”, Warszawa (capital da Polônia), já se posiciona na questão bad vibes. David Bowie passou apenas uma tarde na capital polonesa, o suficiente para marcá-lo. Warszawa, ou Varsóvia em português, era uma cidade ainda desolada pela Segunda Guerra, tentando se reconstruir.
Bowie deve ter visto a si mesmo e o clima fúnebre que permeia por toda canção com um vocal bizarro ao final, onde não há uma linguagem distinguível confirmam. O líder da banda punk Joy Division, Ian Curtis, revelou que inicialmente o grupo se chamaria Warsaw em referência a esta música.
Todo o “night side” é estranho e sombrio, desapontando críticos e a própria gravadora de Bowie, que dizia que Low não venderia bem. De fato, Low não vendeu, mas como o próprio artista vinha a afirmar anos depois, não era para vender mesmo.
Low é o reflexo de um homem em pedaços, ou seja, o estado mental de Bowie na época. O artista não criava personas para fugir de seus traumas, ele os estava encarando de frente e superando a loucura que tanto o perseguiu.
Essa superação da loucura é vista no outros dois álbuns da trilogia, que são mais otimistas que Low. Heroes, também de 1977, ficou conhecido pela música título, uma homenagem a Florian Schneider, um dos membros do Kraftwerk. Uma curiosidade sobre este álbum é que foi o único a ser todo gravado na Alemanha e o estúdio ficava próximo ao Muro de Berlim, inspirando a composição de algumas faixas.
Lodger (1978) é o álbum “bastardo” da trilogia e da década de setenta. Sua sonoridade é estranha, não sendo introspectiva, mas cheio de experimentações, evidenciado pelo nome provisório Planned Accidents (Planos Acidentais). Lodger é o álbum mais difícil de se digerir de toda a carreira de Bowie, por isso acabou sendo o mais desprezado, as vezes nem figurando na lista de todos os álbuns realizados pelo astro.
O álbum inicia com uma viagem fantástica e pessimista na música Fantastic Voyage, passando por cânticos africanos em Move On, reggae em Yassassin, e até mesmo uma volta as origens com Boys Keep Swinging, fechando com a música Red Money, uma releitura de Sister Midnight de Iggy Pop.
O período no continente europeu serviu para limpeza. Limpeza das personas, da cocaína, das paranoias e das loucuras. Havia apenas música. Porém, com o fim da década de setenta, a década de seu auge onde ganhou ares de mito graças a sua excentricidade e genialidade artística, Bowie finalizava-a como se estivesse encerrando a carreira, trazendo de volta o personagem que começaria tudo: um astronauta perdido no espaço.
O movimento pós-punk e a New Wave foram influenciadas por Bowie. Da androgenia de Ziggy a melancolia de Low, ele era referência para os jovens da época. Havia boates londrinas onde os jovens se fantasiavam de Bowie e escutavam suas músicas, o mais famoso era o Blitz Club. Mas Bowie não via isso com bons olhos, sentindo-se descartado por uma geração que “passaria por cima dele”.
O último álbum da década de setenta foi Scary Monsters (1980), expondo toda sua experiência com música eletrônica com instrumental, encerrando seu auge de maneira magistral.
Scary Monters é outro álbum pessoal para o cantor, como se fica evidente em seus gritos de raiva na faixa It’s No Game e em Teenage Wildife, sua canção mais ofensiva, ao qual criticava os jovens da New Wave, em especial o cantor Gary Numan, desafeto público de Bowie.
Porém, é em Ashes to Ashes que o paradoxo vem à tona: irritado com seu iminente “fim”, mas ao mesmo tempo conformado a situação. No clipe bizarro, que marcaria a MTV, Bowie está vestido de Pierrot, fazendo referência as aulas de mímica com Lindsay Kemp, andando como se estivesse em um funeral ao lado de um jovem rebelde do Blitz Club.
Bowie termina a década de setenta “mais que um simples humano”, uma de suas frases mais célebres. Ele conseguiu isso através de sua arte, suas personas, do ocultismo, do amor, das drogas, do casamento e tudo o que tinha falhado para ele. A partir da década de oitenta, Bowie se entregaria ao mundo pop com seu álbum Let’s Dance, de 1983, se distanciando de seu público fiel, mas trazendo uma totalmente nova e muito numerosa.
A partir daí, David Bowie passa a lotar estádios e ganhar milhões, porém sem o carisma de Ziggy ou qualquer outra coisa que ele criou nos anos setenta. Há até acenos para essa época, como resta evidente na faixa Modern Love, mostrando a frustração com tudo o que o cantor buscou durante toda sua vida.
Let’s Dance levou o cantor a um ponto sem retorno. Tentando agradar a nova audiência, desenvolveu Tonight (1984) e Never Let Me Down (1987), além de um dueto com Mick Jagger. Segundo o próprio Bowie, ele não sabia bem o que estava fazendo, pois não sabia o que novo público queria e se eles o conheciam antes de Let’s Dance. David Bowie até recuperou sua banda, Tin Machine, produzindo alguns álbuns durante as décadas de noventa e 2000, mas nunca recuperando a aura mística dos anos setenta, algo entranhado na cultural ocidental de hoje, influenciando artistas, filmes, séries, histórias em quadrinhos e games.
Os últimos dias de David Bowie mostram que ele deixou os fantasmas do passado para trás, bem casado com uma modelo, eventualmente compondo e lançando suas músicas, sem nenhuma obrigação, fazendo tudo pelo seu amor à arte.