Hoje, vamos ver o quarto episódio, que nos apresentará mais algumas melodias. Após ele, já com a sonoridade bem familiar ao espectador, vamos quebrar nossa linha e analisar dois episódios em um único texto.

No quarto episódio (Cripples, Bastards, and Broken Things), somos surpreendidos com um Bran Stark em pé, seguindo um corvo de três olhos, acompanhado pela faixa A Raven from King’s Landing. A faixa, que termina em suspensão, combina perfeitamente com Bran abrindo os olhos na cama, nos indicando que a cena não passara de um sonho.

Após uma longa jornada, Daenerys chega a Vaes Dothrak, cidade sagrada dos dothrakis, e aqui ouvimos To Vaes Dothrak, um arranjo para duduk e percussão que simula o passo firme e pesado dos cavalos e a imponência do território. Não há pressa; cada batida reforça a solenidade e o peso cultural daquele povo guerreiro.

Quando essa faixa toca, Daenerys está passando por uma transformação profunda. Ela deixa de ser a garota assustada e submissa do início da temporada para começar a assimilar a força, a imponência e o peso de se tornar uma Khaleesi.

Numa cena original, que não existe nos livros, vemos Viserys com uma das aias de Daenerys, Doreah, e eles conversam sobre dragões e a Antiga Valíria. Neste diálogo temos a faixa A Golden Crown, que utiliza texturas modais sem resolução para gerar uma atmosfera de suspensão, melancolia e nostalgia. Isso reflete a estagnação da vida de Viserys, preso às memórias de um passado glorioso que já não existe, e a harmonia reflete essa falta de progressão real. De arranjo minimalista, a ausência de percussão ou de instrumentos de metal esvazia a força política de um herdeiro Targaryen: o homem que se intitula “o Último Dragão” está, na verdade, nu e isolado em uma banheira em terras estrangeiras.

Sentindo-se humilhado, Viserys vai à tenda de Daenerys, arrastando Doreah, e esbraveja contra a irmã. Aqui vemos a maturidade de Dany ao responder ao irmão e, mesmo após levar um tapa, se defender golpeando-o. E é nesse momento que ouvimos o mesmo som que escutamos quando Dany observa seus ovos, um lamento místico que reforça a maturidade da garota.

Após reuniões no Pequeno Conselho, Ned volta aos seus aposentos e encontra Arya treinando, algo que a música nos diz antes de a vermos, justamente pela presença da faixa The Pointy End. Quando conversam sobre o treinamento e Bran, Ned menciona que Arya poderia se casar e ela rebate, e novamente ouvimos The Pointy End, procurando demonstrar os traços da personagem.

Neste episódio somos apresentados a Samwell Tarly, um homem gordo vindo da Campina para a Patrulha da Noite. Incapaz de manejar uma espada, Tarly confidencia a Jon que é um covarde e que seu pai, Randyll Tarly, não o considera herdeiro; por isso, a Patrulha seria um caminho melhor que a morte. Durante o diálogo, a faixa The Wall retorna, assim como quando Alliser Thorne, mestre de armas da Patrulha, se revolta com Jon por perceber que ele influenciou todos a não atacar Sam.

Mais tarde, Jon e Sam conversam enquanto limpam o refeitório e são interrompidos por Thorne, que descreve com crueza como é ficar a centenas de quilômetros de qualquer suporte, isolado no escuro e no frio mortal do Extremo Norte. O discurso gira em torno da ideia de que o Norte não liga para sua habilidade com a espada se você congelar de medo ou for pego desprevenido pela escuridão. Djawadi costura isso de forma cirúrgica na atmosfera da faixa North of the Wall, com zumbidos graves de sintetizadores, timbres metálicos soturnos e notas longas de cordas que simulam o vento uivante e a vastidão estéril da neve.

A trilha sonora característica das intrigas da corte volta aos nossos ouvidos quando Mindinho sugere a Ned conversar com o escudeiro de Jon Arryn e com o armeiro que Arryn visitou antes de morrer. Na loja do armeiro, Ned encontra um bastardo do rei Robert e questiona-se sobre a relevância do jovem.

No Torneio da Mão, vemos que Arya e Sansa assistem ao torneio quando Mindinho se junta a elas. Elas acompanham o combate entre o jovem e recém-armado cavaleiro Sor Hugh do Vale e o brutal Gregor Clegane, a Montanha. Hugh acaba morrendo de forma trágica quando a lança de Clegane lhe perfura a garganta. Enquanto os cavaleiros se alinham e cavalgam um contra o outro, a música de fundo utiliza acordes tensos de cordas que crescem rapidamente em volume, criando um clima de inevitabilidade e tragédia iminente para o inexperiente Sor Hugh. No exato momento do golpe fatal e do silêncio gélido que toma a arquibancada quando todos percebem o que aconteceu, a trilha se retrai por um segundo para dar lugar ao impacto visual da cena e à reação chocada de Sansa, que começa a ouvir de Mindinho a história de Gregor e de seu irmão Sandor, e de como eles se odeiam.

A faixa que permeia toda essa cena, do embate até a história dos irmãos Clegane, não foi incluída na trilha sonora oficial e, por isso, não tem nome, embora tenha durado bastante tempo.

O episódio se encerra numa estalagem na encruzilhada: Catelyn Stark, que retorna a Winterfell, cruza o caminho de Tyrion Lannister, que volta para Porto Real. Quando Tyrion a reconhece e a questiona sobre sua ausência em Winterfell, começa a faixa Await the King’s Justice. A música se desenvolve sobre acordes menores prolongados com presença do dulcimer. Seu início tem aparente neutralidade até Catelyn subverter a situação ao apelar para os cavaleiros e vassalos das grandes Casas leais aos Tully, casa à qual ela pertencia antes do casamento. A trilha eleva o peso daquele momento e nos dá um pequeno vislumbre de um trecho melódico que se tornará tema de um personagem no futuro. Mesmo com o fim do episódio, ainda escutamos o tema nos créditos finais.

O quinto episódio (The Wolf and the Lion) abre com Ned andando nos pavilhões do torneio, e tudo indica que ele está deslocado ali, na capital. Ele veste roupas sóbrias e práticas do Norte, contrastando frontalmente com a ostentação cortesã do Sul. A direção o posiciona como um corpo estranho naquele ambiente; ele não está ali para festejar ou se divertir, mas para cumprir um dever político incômodo como Mão do Rei. A música que embala essa sequência não busca ser festiva. Pelo contrário, ela usa cordas graves e contidas. Em vez de celebrar a ocasião, a trilha reforça a sensação de que o torneio é uma perigosa vitrine de vaidades.

O combate em cena é entre Loras Tyrell, o Cavaleiro das Flores, e Gregor Clegane, precedido por uma tensão orquestral muito mais calculada e elaborada do que a do embate do episódio anterior. A música intensifica a astúcia e o elemento tático do confronto — afinal, Loras não está competindo na força bruta, mas usando a inteligência ao montar uma égua no cio para distrair o garanhão da Montanha. A trilha de Djawadi cresce em camadas de cordas rítmicas que simulam a excitação e o perigo calculado da arena. Quando a armadilha de Loras funciona e Clegane, enfurecido e humilhado, decapita seu próprio cavalo com uma espada montante, a música atinge um pico de urgência dramática e selvageria.

Voltamos a acompanhar Catelyn, agora com Tyrion prisioneiro, na estrada para o Vale, onde ela pretende encontrar sua irmã. Na companhia deles está Marillion, um bardo; ali, na viagem pelas Montanhas da Lua, ele é um exemplo de música incidental, som de fundo usado para ambientar cenas, sugerir ações ou indicar passagens de tempo.

Em Winterfell, acompanhamos o treinamento intelectual de Bran, e o garoto se mostra insatisfeito com a ausência da mãe. Bran responde atravessado às questões de Meistre Luwin, e a faixa dos Stark volta a soar para ilustrar o descontentamento do garoto.

Em Porto Real, ouvimos o dulcimer enquanto Arya persegue um gato, como parte de seu treinamento. O som se encerra quando a câmera desliza para a reunião entre Ned e Lorde Varys, dando lugar ao som característico das tramas da corte, pois Varys traz a informação sobre o veneno que matou Jon Arryn. A trilha continua com Arya perseguindo o gato e encontrando os crânios dos dragões. A faixa sem nome se intensifica quando ela passa a ouvir uma conversa que não entende, mas que revela ao espectador que Varys está em conluio com Illyrio Mopatis.

As intrigas continuam com um diálogo próprio da série entre Mindinho e Varys na sala do trono, um vislumbre do que futuramente será um tema importante para a série. O dulcimer não se encerra com a cena: quando Arya sai de um esgoto ao escapar das masmorras, o instrumento volta a brilhar.

Ouvimos uma percussão retumbante quando Yoren, um homem da Patrulha da Noite que acompanhava Tyrion, informa Ned da captura do Lannister. A cena é cortada para a chegada de Catelyn Stark e sua comitiva ao Ninho da Águia. A melodia que ouvimos talvez tenha sido pensada como um tema para a Casa Arryn, pois voltamos a ouvi-la quando somos apresentados a Lysa Arryn, irmã de Catelyn, e a seu filho; porém, a faixa nunca entrou na trilha sonora oficial.

O episódio se encerra com Ned saindo de um bordel após descobrir outro bastardo de Robert. Aqui, Jaime Lannister cerca o grupo de Ned e, após gracejos, inicia-se um confronto. É aí que entra Small Pack of Wolves, uma combinação de percussão com cordas graves. A música não está ali para celebrar a força de qualquer lado. Pelo contrário. Ela sublinha a vulnerabilidade da “pequena matilha” Stark quando isolada em território hostil.

A genialidade da cena está na frase que Jaime profere segundos antes do confronto: “Such a small pack of wolves.” (algo como: “Uma matilha de lobos tão pequena.”). Mesmo sendo uma trilha de confronto, Djawadi é astuto ao se manter contido. Se fosse uma fanfarra de ação épica, a cena pareceria um duelo de iguais. Ao manter a sobriedade das cordas graves e melancólicas, a música enfatiza que aquilo não é um confronto honrado, mas sujo, a ponto de Jaime ordenar apenas a morte dos homens de Ned. O luto da música se sobrepõe ao som das espadas se chocando e ao sangue pingando, enquanto Ned tem uma lança atravessada na perna direita e vê os Lannister saírem do local.

Os créditos do episódio sobem com o som do dulcimer declamando a mesma melodia identificada no diálogo entre Mindinho e Varys, algo que, na terceira temporada, se tornará um tema próprio.

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